Humanidades Digitais para os museus

No passado dia 8 de abril foi o dia das Humanidades Digitais (Digital Humanities).

Os dias disto ou daquilo valem o que valem e, geralmente, não são mais do que uma chamada de atenção ou um pretexto para se falar do assunto. O que já é alguma coisa. No caso das Humanidades Digitais que, não sendo um domínio científico recente, ainda é pouco referido entre nós, serviu sobretudo para aferir quem procura integrá-lo na respetiva investigação científica ou que projetos se inscrevem neste âmbito.

Foto promocional do projeto CHESS Augmented Reality at Digital Heritage 2013 na Galeria Arcaica do Museu da Acrópole em Atenas.

Foto promocional do projeto CHESS Augmented Reality at Digital Heritage 2013 na Galeria Arcaica do Museu da Acrópole em Atenas.

O conceito é conhecido e utilizado. Os projetos de engenharia eletrónica, que usem um tema de Humanidades como base experimental, tendem a definir-se igualmente como uma investigação no âmbito das Humanidades Digitais. Mas, sê-lo-ão de facto?

As Humanidades Digitais remontam a meados do século passado, considerando-se o projeto Index Thomisticus, desenvolvido por Robert Busa desde 1949, como a experiência pioneira da aplicação da tecnologias digitais à investigação em Ciências Humanas, impulsionando um novo ramo de investigação, a computação para as Humanidades.

“Desenvolvendo-se a partir da computação para as Humanidades, o digital para as Humanidades (digital humanities) procura conciliar os conhecimentos e os métodos utilizados nas ciências humanas com o mundo digital. Em termos genéricos, o digital para as Humanidades engloba o conjunto de pesquisas e experiências que visam facilitar a utilização dos recursos digitais, tornando-os mais intuitivos e acessíveis.” (Guerreiro, 2013)

Neste sentido, é lícito reconhecer que os museus têm vindo a acompanhar e a aproveitar as vantagens da evolução da tecnologia digital nas tarefas e funções que lhes são atribuídas, sobretudo na inventariação e, de uma forma mais lenta e incipiente, na divulgação e comunicação. Porém, tomando a dinâmica do projeto de Robert Busa como modelo, verificámos que a metodologia em Humanidades Digitais não é (apenas) a aplicação da tecnologia existente, recolhendo o benefício do que já existe. Também não será (apenas) a disponibilização para funcionar como campo experimental a projetos definidos e desenhados no perímetro da investigação em tecnologia digital. “A investigação neste domínio [humanidades digitais] tem como principal objetivo adequar a disponibilização da informação digital às exigências e expetativas dos investigadores e aumentar o nível de eficácia desses procedimentos.” (Guerreiro, 2013) Ou seja, compete aos museus e, por inerência, aos investigadores em museologia, identificar as situações-problema passíveis de resolução ou de otimização através das novas tecnologias. Cabe-lhes a iniciativa mas, em regra, esta competência tem sido menosprezada pelos próprios, delegando-a nos restantes agentes do processo.

Por definição, a equipa de investigação em Humanidades Digitais é pluridisciplinar e todos os participantes têm atribuições específicas e complementares. Se a componente das Humanidades se demitir ao longo do processo, isso não significa a invalidação do projeto, mas, provavelmente, limita-lhe o universo das possibilidades. A questão é se os museus estão empenhados em integrar-se neste domínio da investigação e assumir a aplicação das novas tecnologias como exercício prioritário, no sentido em que pode ser facilitador das restantes funções museológicas. Em geral, a resposta óbvia é que sim. A forma como alguns museus – sobretudo, os grandes museus, mas também algumas instituições museológicas de menor projeção – tem vindo a propor e a exigir o desenvolvimento de ferramentas e aplicações informáticas é incontestável.

Por isso, impõe-se redefinir a questão e averiguar se os museus portugueses também estão empenhados. Observando os conteúdos que têm vindo a ser disponibilizados em linha, a resposta óbvia é que não. A utilização das novas tecnologias mantém-se como um meio auxiliar: a informação em suporte digital, sem identidade própria, não oferece uma vantagem substancial em relação à informação em suporte analógico. Raramente vai mais longe do que a disponibilização das bases de dados dos inventários com imagens de baixa resolução e sem hiperligação a documentos de informação complementar.

Registamos os últimos desenvolvimentos do MatrizNet (catálogo coletivo das coleções dos Museus IMC) e do MatrizPix (catálogo das coleções fotográficas dos Museus IMC), mas para lá das alterações na pesquisa e no acesso à informação, as melhorias não parecem relevantes. Verificamos a evolução dos sítios eletrónicos dos museus e as intervenções nas redes sociais, mas a informação que por lá passa é meramente factual, quando não incipiente e desatualizada.

Pode ser que um dia, invertendo o modelo e já que os museus não parecem querer aproveitar a oportunidade e tomar a iniciativa, sejam as Humanidades Digitais a forçar os museus à entrada na nova era. Pode ser que, um dia, os museus sejam forçados a aderir às potencialidades da hiperligação entre dados para construir um corpus alargado de informação relativa aos espólios, desde a documentação de arquivo aos estudos científicos. Pode ser que, um dia, os museus sejam impelidos a disponibilizar a representação digital dos objetos em realidade aumentada e a permitir a sua manipulação digital, criando um complemento informativo à observação do original no espaço físico da exposição. Pode ser que, um dia, os museus sejam coagidos a disponibilizar WiFi e APP móveis no percurso museológico, facultando o acesso a fontes de informação adicional para a leitura e a interpretação dos objetos expostos.

Pode ser que, um dia, sejam os utilizadores a exigir ao museu a adesão às Humanidades Digitais.

Bibliografia:
Guerreiro, D. M. (2013, 6 out.). Bibliotecas Digitais para as Humanidades: novos desafios e oportunidades. Bibliotecas Digitais para as Humanidades [blogue]. Retrieved from http://bibliotecasdigitaisparaashumanidades.wordpress.com/2013/06/10/bibliotecas-digitais-para-as-humanidades-novos-desafios-e-oportunidades/
Guerreiro, D. M., Calixto, J. A., & Borbinha, J. (2012). Bibliotecas Digitais para as Humanidades: novos desafios e oportunidades. Actas do Congresso Nacional de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas. Retrieved from http://www.bad.pt/publicacoes/index.php/congressosbad/article/view/354/pdf

Fonte da imagem: http://www.chessexperience.eu/v2/publications-and-media/presentations-exhibitions.html

(*) CHESS (Cultural Heritage Experiences through Socio-personal Interaction and Storytelling) é um projeto financiado pela União Europeia, que visa enriquecer a visita ao museu através de experiências narrativas interativas personalizadas.

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