Paisagem nórdicas em Lisboa

Exposição “Rubens, Brueghel, Lorrain: A paisagem nórdica do Museu do Prado “ Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga, 6 dezembro 2013 – 6 abril 2014 Interrompem-se os dias do Prado em Lisboa… O Museu Nacional de Arte Antiga acolheu, até agora, a exposição temporária de 57 pinturas dos grandes mestres da paisagem nórdica do século XVII cedidas pelo Museo Nacional del Prado, de Madrid.

Exposição "Rubens, Brueghel, Lorrain" Foto: MIR, 2004

Exposição “Rubens, Brueghel, Lorrain”: entrada
Foto: MIR, 2004

Comissariada por Teresa Posada Kubissa, conservadora da secção de pintura flamenga e Escolas do Norte no Museu do Prado, a exposição, pese embora a itinerância prévia em Espanha, apresenta um conjunto de obras mais completo e coerente organizado especificamente para a apresentação em Lisboa. O guião expositivo estrutura-se em nove núcleos que correspondem a diversas tipologias de paisagem, destacáveis na pintura flamenga e holandesa:” A montanha: encruzilhada de caminhos”; “O bosque como cenário: a vida no bosque, o bosque bíblico e a floresta encantada, encontro de viajantes”; “Rubens e a paisagem”; “A vida no campo”; “No jardim do palácio”; “Paisagem de gelo e de neve”; “Paisagem de água: marinhas, praias, portos e rios”; “Paisagens exóticas, terras longínquas”; e, por fim, um núcleo separado e dedicado ao tema “Em Itália pintam a luz”. São paisagens, gélidas ou cálidas, mas quase sempre povoadas de cenas de género, cenários onde se cruzam pessoas e animais, documentos de pitorescos quotidianos.

Ato de devoção de Rodolfo I de Habsburgo (pormenor), Peter Paul Rubens e Jan Wildens, c. 1618-1620

Ato de devoção de Rodolfo I de Habsburgo (pormenor), Peter Paul Rubens e Jan Wildens, c. 1618-1620 Foto: MIR, 2014

A exposição marca o início da cooperação entre os principais museus de arte antiga de Portugal e Espanha e cuja continuidade foi assegurada através de um convénio assinado em Setembro de 2013, no qual se prevê a realização de projetos conjuntos e o intercâmbio de obras tendo em vista o conhecimento mútuo das respetivas coleções. Pese embora a polémica causada pela notícia da contrapartida portuguesa envolver o empréstimo do tríptico Tentações de Santo Antão, de Hieronymus Bosch, para a exposição que o Prado prepara para 2016, por ocasião do centenário da morte do pintor, esta colaboração integra-se na nova estratégia de internacionalização encetada por António Filipe Pimentel, atual diretor do museu, e que visa a elaboração de projetos com outros museus estrangeiros de significativa importância. A produção foi entregue à empresa Everyhting is New, fundada em 2007, responsável pela organização e promoção de eventos, sobretudo na área das artes performativas, mas que pretende afirmar-se no domínio das artes plásticas. Depois da  exposição Joana Vasconcelos, no Palácio Nacional da Ajuda, em 2013, a empresa, em parceria com a Direção Geral do Património Cultural e o Museu de Arte Antiga, volta, nesta, a ser responsável também pelos setores extramuseográficos. Assinalam-se, portanto, duas circunstâncias singulares nesta exposição: por um lado, a articulação programática entre dois museus de referência; por outro, a delegação da extensão comunicacional da exposição a uma entidade externa. Não se pode afirmar que este esquema seja um formulário de sucesso, mas é certo que, neste caso, funcionou com um êxito que, embora não seja inédito, é bastante apreciável. Com um prazo previsto até 30 de março, a crescente afluência de público, que, na altura, atingia já 65.000 visitantes, impôs o prolongamento durante a primeira semana de abril e as salas continuaram a encher-se.

Exposição "Rubens, Brueghel, Lorrain": público

Exposição “Rubens, Brueghel, Lorrain”: público

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Exposição “Rubens, Brueghel, Lorrain”: público

Exposição "Rubens, Brueghel, Lorrain": público Fotos: MIR, 2004

Exposição “Rubens, Brueghel, Lorrain”: público Fotos: MIR, 2004

Acima de tudo, esta é uma boa exposição: uma estrutura lógica e uma narrativa inteligível; uma museografia correta, onde o fundo neutro promove o protagonismo das obras, mas aproveitando a zona da entrada e um espaço de circulação para uma maior exuberância criativa; textos informativos e legendas interpretativas trilingues (português, espanhol e inglês) de conteúdo sucinto e expressivo e tipografia (quase) legível.

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Exposição “Rubens, Brueghel, Lorrain”: museografia Paisagem com ciganos, David Teniers, o Jovem, c. 1641-1645

Exposição "Rubens, Brueghel, Lorrain": museografia Fotos: MIR, 2004

Exposição “Rubens, Brueghel, Lorrain”: museografia
Fotos: MIR, 2004

O público, eclético e multigeracional, correspondeu e mostrou-se ativo na observação das obras e na leitura dos textos, comunicativo face a uma guardaria que se manteve discreta. Prova-se que, quando existe uma oferta museológica de qualidade e quando esta é cabalmente divulgada, o público responde da melhor forma. Só precisa de ter um motivo.

3 thoughts on “Paisagem nórdicas em Lisboa

  1. Cara Maria Isabel,

    No seu comentário foi mais contida que o Director-Geral do Património Cultural, que classificou o modelo de colaboração como “um [claro] sucesso” com base no número dos visitantes. Este é apenas um indicador e, quando não associado a outros, diz pouco. Eu gostei da exposição, senti-me bem nela, diverti-me muito com o meu filho de 8 anos a descobrir pormenores nos quadros. Apreciei também alguns dos pontos que a Maria Isabel identifica no seu texto.

    No entanto, a colaboração em si levanta, na minha opinião, uma série de questões que não me permitem classificá-la como um sucesso. Uma delas prende-se com as questões de comunicação, “entregue” ao parceiro, que faz desaparecer a identidade daquele que é considerado o mais importante museu português, que se torna assim num local onde se fazem exposições. Além disso, usam-se nomes sonantes de pintores no título, aqueles que irão atrair o público, quando a sua representação na exposição é muito limitada. Várias pessoas sentiram-se defraudadas, mas, lá está, contam entre os milhares de visitantes que permitem classificar a exposição como um sucesso.

    Registei as minhas preocupações num texto que escrevi em Janeiro e que está aqui, se quiser ler: http://musingonculture-pt.blogspot.pt/2014/01/para-que-possam-viver-felizes-para.html

    Obrigada pela partilha, um abraço.
    Maria

    • Cara Maria Vlachou,
      Agradeço-lhe o seu oportuno comentário.
      Gostei da exposição, apreciei mais umas pinturas do que outras, elogio sobretudo a museografia embora nem tanto a iluminação e apesar do nome de Vítor Vajão. Achei particularmente adequados os textos de suporte, embora nalguns casos talvez demasiado extensos.
      Fui várias vezes ao MNAA enquanto lá esteve a exposição e pude registar o “sucesso” no que se refere à adesão do público, provando que há público quando há exposições que são noticiadas. A exposição, com as obras que tinha, pareceu-me adequada e correta e, também isso, me parece ter sido bem sucedido.
      Quanto ao resto… Merecia uma análise bem mais aprofundada que, por economia de tempo, não fiz, mas que a Maria Vlachou (e não só) já tinha feito (e muito bem!) no seu texto, que eu tinha lido.
      Abstive-me de comentar a incoerência entre o título e o conteúdo, a qualidade de algumas das obras, o desequilíbrio da colaboração prevista entre Portugal e Espanha, a repetição de um ato falhado que foi o empréstimo da pintura do Bosch, a demissão do museu na comunicação, um dos domínios fulcrais da atividade museológica (ou o esvaziamento do museu numa progressiva conjuntura da cultura do espetáculo, superficial ou artificial). Julgo que é ao museu que compete reivindicar as funções de estudo, de investigação, de curadoria e de comunicação quando estas lhes fogem, mostrando competência na sua execução e definindo-se como o principal agente na construção da “identidade daquele que é considerado o mais importante museu português”, como diz. Mas e se o museu não for capaz? Se entregar o seu papel a terceiros, isso é causa ou consequência?
      Grata pela sua atenção e pela oportunidade e justiça dos seus comentários.
      Um abraço,
      Maria Isabel

      • Cara Maria Isabel,

        Penso que tem toda a razão em levantar a questão do que o “museu é capaz”. Às vezes não é capaz por falta de dinheiro e outras por não ter técnicos com preparação adequada para desempenhar certas funções. Em qualquer dos casos, havendo uma terceira parte que investe, é preciso negociar de forma a garantir o que é devido a um dos principais parceiros neste negócio, o museu, que também investe, e muito, em género. A tutela tem evitado tocar nessas questões.

        Um abraço e obrigada também pela sua resposta.
        Maria

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