Onde está a arte quando se limita à barriga de um urso?

Dans la peau de l’ours : Une performance d’Abraham Poincheval
Paris, Musée de la Chasse et de la Nature, 1 – 13 abril 2014

Performance de Abraham Poincheval Paris, 2014

Performance de Abraham Poincheval
Paris, 2014

Abraham Poincheval fala de uma viagem interior.

Conhecido já pelas imersões insólitas, Poincheval ingressou literalmente na pele de um urso. Emmanuelle Jardonnet, num artigo publicado hoje no Le monde, conta que a ideia lhe surgiu em 2012, nos Alpes italianos, ao passar uma longa estadia num habitáculo-cápsula tendo por única companhia os animais da floresta e fala da sensação extrema quando, ao sair da experiência, viu os guardas-florestais, os primeiros seres humanos que encontrou, a carregar carcaças de animais como aqueles com quem vivera.

“Les premières personnes que j’ai rencontrées à l’issue de ce voyage étaient des gardes-chasse, qui portaient des dépouilles d’animaux. Voir ces bêtes mortes, alors que je les avais peut-être croisées vivantes quelques jours plus tôt, m’a fait un effet très fort.” (Poincheval, cit por Jardonnet, 2014).

O sentimento de afinidade justifica a necessidade de se entrar no espaço interior de um deles, adaptando-se às coordenadas (possíveis) do seu quotidiano.

Escolheu uma pele de urso, construiu uma estrutura em madeira que se lhe adaptasse às formas e à volumetria, equipou-a com água, luz, ventilação, um recetáculo de resíduos sanitários, cordas elásticas para fazer alguns exercícios de musculação, preparou o abrigo com um fino colchão de espuma, combinou um cardápio à base de grãos, insetos e cogumelos, para ser idêntico à dieta do animal, instalou uma câmara no interior, instalou uma pequena biblioteca na porta e obteve autorização para se instalar no  Musée de la chasse et de la nature, em Paris, em pleno Marais.

Durante duas semanas, até 13 de abril, Abraham Poincheval vai ficar deitado de costas no ventre do urso, com a cabeça ao nível do pescoço do animal, as refeições, desidratadas e ensacadas em vácuo, encontram-se armazenadas aos seus pés, a água está num depósito inserido no soco de suporte, prevê fazer duas horas de exercícios diários, os possíveis no espaço exíguo, e ler. A performance é transmitida por um duplo sistema de vídeo, um, instalado no interior do animal, o outro, na sala onde se encontra. O vídeo é retransmitido em contínuo no sítio do museu e também pode ser visionado noutros espaços museológicos como Palais de Tokyo (Paris), no Musée d’Art Contemporain du Val du Marne (Vitry-sur-Seine) e no Musée Gassendi, em Digne-les-Bains (Alpes-de-Haute-Provence). Os visitantes podem ainda espreitar diretamente o interior da cabina através de um óculo dissimulado no ânus do urso, ou podem sentar-se num sofá junto a uma mesa onde se encontram alguns livros e, simplesmente, olhar, conversar, ler em voz alta.
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Para o museu, esta ação já teve o mérito da propaganda: é notícia na maioria dos jornais, dos noticiários, nas redes sociais. Para o artista, é mais uma das suas ações performativas, será um retiro introspetivo e tem, igualmente, a vantagem da divulgação de uma obra que se resume a isto. Para os visitantes, para todos os voyeuristas que de alguma forma o acompanham, é mais uma oportunidade de saciar o impulso curioso.

E para a arte? Qual a relevância ou, simplesmente, que evidência se pode retirar desta narrativa de gestos contidos no quotidiano (in-)viável e (in-)comunicante que aqui se processa? É possível descortinar a substância para lá da aparência? Pode o artista constitui-se como signo do seu próprio discurso e podemos nós assumir a condição de interpretantes para lá da observação inconsequente? E se a ação fracassar, enquanto processo semiótico, continua a ser arte? Ou, simplesmente, para onde vai a arte quanto se estabelece na barriga de um urso?
Onde está a arte quando se limita à barriga de um urso?

Referência bibliográfica:
Jardonnet, E. (2014, 4 abr.).Dans la peau d’un ours pendant treize jours. Le monde: Culture. Disponível em : http://www.lemonde.fr/culture/article/2014/04/02/dans-la-peau-d-un-ours-pendant-treize-jours_4393594_3246.html

Fonte das imagens: http://poincheval.chassenature.org/a-propos.HTML

One thought on “Onde está a arte quando se limita à barriga de um urso?

  1. Pingback: O fim da exposição performativa de Abraham Poincheval | a.muse.arte

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