Jacques Le Goff, o historiador em busca da Idade Média

Jacques Le Goff (1924 –  2014)

Jacques Le Goff.  Foto: Jacques Sassier / AFP

Jacques Le Goff.
Foto: Jacques Sassier / AFP

Jacques Le Goff foi um dos fundadores da Nouvelle Histoire, corrente historiográfica que surgiu nos anos 1970 no contexto da denominada Terceira Geração da École des Annales, fundada por  Lucien Febvre e Marc Bloch, de quem Le Goff se confessava discípulo póstumo.

Afastando-se da história positivista, marcada pela busca da causalidade e pelo primado da investigação fatual, a Nouvelle Histoire centra a investigação na história da cultura e das mentalidades, assumindo como objeto de estudo os fenómenos mais abrangentes e de longa duração relacionados com a análise das estruturas e das representações coletivas da sociedade. O estudo da história passou a integrar metodologias do estudo antropológico e o ofício do historiador tornou-se um desafio bem mais interessante.

Foi neste espírito que, em 1977, se criou curso de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, cuja comissão instaladora era presidida por António de Oliveira Marques, criando uma alternativa aos estudos das Universidades de Lisboa, Porto e Coimbra, sob a inspirada nos trabalhos de autores como Marc Bloch et Lucien Febvre, Fernand Braudel, Georges Duby e Jacques Le Goff.

Com Duby e Le Goff, fiquei a saber que a Idade Média, apesar da obediência feudal, das pestes e do fanatismo religioso não era a “idade das trevas” nem um obscuro interlúdio entre a civilização clássica e o seu renascimento, mas a matriz da nossa modernidade, um mundo prodigioso a desvendar através do estudo da vida quotidiana, das crenças, medos e superstições, da literatura, da poesia, dos cantares e dos autos, dos tratados sobre as escrituras e os mistérios da fé entre o céu e o purgatório, do sagrado e do profano, das representações simbólicas inscritas nos portais ou nos capiteis de igrejas e catedrais, das narrativas iluminadas, do mundo dos mercadores e dos banqueiros, do pensamento dos intelectuais, dos heróis e das maravilhas, da passagem do campo à emancipação nas cidades.

Jacques Le Goff morreu hoje, 1 de abril de 2014, em Paris. Tinha 90 anos e acabara de publicar a derradeira obra Faut-il vraiment découper l’histoire en tranches? que se afirma como:

“Ni thèse ni synthèse, cet essai est l’aboutissement d’une longue recherche: une réflexion sur l’histoire, sur les périodes de l’histoire occidentale, au sein de laquelle le Moyen Âge est mon compagnon depuis 1950.” (Le Goff, 2014, 7).

O título confirma-se, agora que recebemos a notícia da sua morte, como um testamento que nos interpela e um legado que culmina a vastíssima obra que nos deixou.

Comigo, fica o irredutível apelo da história que, em grande parte, lhe devo.

Referência bibliográfica:
Le Goff, Jacques. 2014. Faut-il vraiment découper l’histoire en tranches ? Paris: Éditions du Seuil.

Fonte da imagem: http://www.standaard.be/cnt/dmf20140401_01050551

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s