Libertar o amor e salvar as pontes

A campanha No love locks visa acabar com os cadeados (Vd. “Cadenas d’amour” na pont des Arts, neste blogue) que proliferam pelas pontes e começam a ameaçar os monumentos da cidade, sobretudo, desde que a Pont des Arts e a Pont de l’ Archevêché (ou ponte Lovelock, como agora é identificada no Google Maps) ficaram esgotadas.

Pont des Arts, Paris Foto:Jean-Baptiste Gurliat/Mairie de Paris

Pont des Arts, Paris
Foto:Jean-Baptiste Gurliat/Mairie de Paris

A iniciativa partiu de Lisa Anselmo e Lisa Taylor Huff, duas americanas que atualmente vivem em Paris. A campanha foi iniciada em fevereiro passado, inclui uma petição que foi conta atualmente com quase 6000 assinaturas, e está a ser divulgada através de um blogue, de uma página no facebook e no twitter. As potencialidades de comunicação das novas tecnologias são largamente aproveitadas para assegurar a eficácia de uma ação que é exclusivamente cívica, enquanto as autoridades se mantêm hesitantes entre a reputação dos cadeados, junto dos turistas, destacando o seu lado romântico, e os riscos patrimoniais e também de segurança que esta prática contagiante acarreta. O sítio oficial da Câmara de Paris alerta :“Si on se réjouit que les amoureux soient si nombreux, ce rituel pose néanmoins quelques problèmes puisque ces témoignages d’amour, milliers de petits cadenas en acier, pèsent très lourd!” (Mairie de Paris, 2014) E, ao mesmo tempo, interroga : “La passerelle des Arts va-t-elle devenir victime des amoureux qui veulent sceller leur amour dans la durée?”

A opinião pública também se encontra dividida e Lisa Anselmo e Lisa Taylor Huff têm vindo a ser acusadas de retrógradas, antiquadas e de se intrometerem em assuntos que não lhes dizem respeito. Os amantes, esses, continuam a selar o amor através dos cadeados…

E nós continuamos a estranhar que isto seja uma prova de amor. Que seja necessário encontrar novos rituais para confirmar o compromisso entre duas pessoas que se amam. Que seja necessário demonstrar esse sentimento através de sinais exteriores e aparentes. E, mais ainda, que se respeite tanto esta atitude sem lógica, ao ponto de não a proibir, como se proíbe qualquer atentado ao património público.

Referência e fonte das imagens:
Mairie de Paris (2014, abr.). L’amour déborde à la passerelle des Arts. http://www.paris.fr/accueil/paris-mag/trop-lourd-l-amour-a-la-passerelle-des-arts/rub_9683_actu_134240_port_23863

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À memória de Vasco Graça Moura

“Quando eu morrer
fica junto de mim,
não queiras ver as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.”
Vasco Graça Moura. Soneto do amor e da morte. In Antologia dos Sessenta Anos

Morreu Vasco da Graça Moura.

Vasco da Graça Moura (1942-2014)

Vasco da Graça Moura (1942-2014)

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Um blogue para “Coleccionar design”

Galeria Bessa Pereira, em Lisboa, tem vindo a superar o objetivo meramente comercial, levando a cabo uma série de iniciativas de divulgação do design português. Ao longo do primeiro ano de existência – inaugurou em abril de 2013 – sucederam-se exposições que resgataram a memória de designers portugueses colocando-os a par de criadores internacionais e articularam expressões de outras épocas com a linguagem da contemporaneidade. Ao mesmo tempo, conseguiu afirmar-se com mais de 600 Gostos no Facebook, através de uma comunicação centrada na divulgação do conhecimento, sem pretensiosismos, mas com correção.

Blogue Coleccionar Design

Blogue Coleccionar Design, 2014

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Há quarenta anos: o património, a minha terra e eu

Luís Raposo publicou ontem, 24 de abril, no Público, um artigo com o título “O 25 de abril e e a (re)invenção do património cultural português”.

Não tenho memórias nítidas do “antes-depois” do 25 de abril, em 74 não imaginava o que fosse “estruturalismo, marxismo e demais «ismos»”, apesar de conhecer “tons do Adriano, do Zeca ou do Fanhais”, que ouvia regularmente no colégio de freiras onde estava interna, porque na minha terra não havia escola de Ciclo Preparatório, sem imaginar que a maioria deles estava proibida. Também não tinha ideia do que fosse património, nem creio que as pessoas à minha volta tivessem alguma ideia do que se tratava, confirmando a constatação de Pedro Canavarro, citado aqui por Luís Raposo, de que “o próprio conceito de «património cultural» era ainda, em grande medida, ignorado”.

Estômbar, antes do 25 de abril

Estômbar, antes do 25 de abril

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O revés do património ou a vã glória de um marquês benfiquista

O património é a herança do passado que mantemos viva para transmitir às gerações futuras. Por isso, é um sistema orgânico que se regenera, feito de reconstruções e adições que se sobrepõem a espaços vazios deixados por fragmentos que se perdem, ou se destroem, e morrem. É um património que se regenera através de sedimentos de emoções que lhe marcam a diacronia e o transformam numa narrativa em permanente construção. Temos a memória que preservamos e apenas possuímos o património que merecemos.

Estátua do Marquês de Pombal com a camisola do Benfica. Marquês de Pombal, Lisboa  Foto: Lusa

Estátua do Marquês de Pombal com a camisola do Benfica.
Foto: Lusa

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A dor nas imagens de Cristo crucificado

No contexto de uma religião cujo símbolo matricial é a cruz, a iconografia da morte de Cristo é um tema naturalmente recorrente. A páthos da paixão e morte de Cristo tem sido um pretexto para a cathársis das emoções, medos e angústias que subjugam a humanidade.

Retábulo de Isemheim: 1.ª abertura: Crucificação Matthias Grunewald C. 1515 Óleo sobre madeira Colmar, Museu de Unterlinden

Retábulo de Isemheim: 1.ª abertura: Crucificação
Matthias Grunewald
C. 1515
Óleo sobre madeira
Colmar, Museu de Unterlinden

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O fim da exposição performativa de Abraham Poincheval

Acabou a ação performativa de Abraham Poincheval, no Musée Chasse Nature.
Após (longos!) treze dias, Abraham Poincheval saiu hoje, às 11 horas, da barriga do urso. Visivelmente combalido, mas afirmando-se satisfeito. As imagens estão no FB do museu, que interrompeu a emissão em direto, substituindo-a por uma foto com a indicação de que o urso ficará em exposição a partir de amanhã.

O fim da exposição-performance "Dans la peau de l'ours" de Abraham Poincheval

O fim da exposição-performance “Dans la peau de l’ours” de Abraham Poincheval

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