Mérito e demérito entre o museu e o público

(Estas são opiniões incoerentes e politicamente incorretas)

Passar pelo museu não significa ver as obras expostas e, muito menos, compreender o que está exposto. Porque o museu continua a ser um espaço de eleição e de elites; porque o museu continua a ser um espaço sacralizado, cujo percurso se faz com a regularidade de um rito; porque o museu mantém um registo monológico, cumprindo as atribuições enquanto emissor da mensagem sem fundamentar a função comunicativa na relação que estabelece com os públicos-recetores.

Observando o público no museu, que deambula através da confusão tumultuosa dos grupos, cansado pela falta de espaços de pausa e com pressa de chegar ao fim, parece inevitável que nos questionemos se a ida ao museu ainda é um prazer.

Quando os museus cumpriram programas de renovação, alargando a zona de entrada e os átrios de acolhimento e redistribuição de público, como aconteceu no Louvre, no British, no Prado, no MoMA, apenas projetaram o problema da afluência do público um pouco mais para a frente, para o interior do espaço expositivo, geralmente, com prejuízo da lógica do percurso e do discurso museológicos.

Público na Grande Galeria do Museu do Louvre. Agosto de 2013

Público na Grande Galeria do Museu do Louvre.
Agosto de 2013

Jean Clair (2011) admitia a hipótese de o museu não ser para todos. Podemos contrapor que o museu deve ser para todos, mas, sobretudo, deve ser uma opção acessível a todos em função da expetativa e da perspetiva de cada um.

O mito, ou a utopia, de que cada um constrói um discurso próprio a partir daquilo que vê, sem necessitar de chaves de leitura extrínsecas à obra de arte implantou-se na epistemologia museológica.

“[…] existe, sin embargo, en la visita ritual a un museo, la ingenua creencia de que los cuadros o las esculturas que allí se conservan nos hablan directamente, se comunican con nosotros sin que tengamos que hacer el esfuerzo de entender lo que representan.” (Clair, 2011, p. 28)

A ida ao museu pode comparar-se à visão de um texto escrito numa língua desconhecida, como o faz Jean Clair. Podemos, talvez mais apropriadamente, compará-la à passagem numa rua cheia de gente desconhecida, reconhecendo que é legítimo o gosto simples de olhar para quem passa por nós. Não se trata, portanto, de recusar a entrada no museu a quem quer lá ir, apenas por ir, ou porque quer contar que foi, ou por outra razão qualquer. Talvez se possa equacionar tudo isto mas, à partida, considera-se que todos os motivos são válidos e que nada nos habilita a formular juízos de valor acerca das razões que leva cada um ao museu. Aí, situa-se a clivagem em relação aos enunciados de Clair, quando propõe que o museu talvez não deva ser para todos e que ao museu não se vai de passeio. Porque não? Tão bom pode ser ir ao Museu de Arte Antiga ver os painéis de Nuno Gonçalves, como lá ir tomar um café numa mesa do jardim a olhar para o Tejo – em particular, se, no caminho para lá chegar, tiver a possibilidade de ver a pintura, a escultura, a cerâmica, a ourivesaria…

E se, além disso, ao olhar para as coleções, soubermos de que se trata? Se ao passarmos numa rua cheia de gente, de repente, nos depararmos com um velho conhecido, cumulando o gosto de ver com a alegria do reencontro?

Não basta ao museu expor as obras, tal como poderá não bastar ao público passar por elas. Ou, pegando no exemplo de Jean Clair, não basta que o texto seja bom se não conhecermos a língua em que está escrito. Não podendo exigir ao público que aprenda a língua e mesmo pressupondo a supremacia da leitura de um texto na forma original, a “democratização”, no sentido de o tornar acessível a todos, passa pela sua tradução em línguas vernáculas. Ao museu também não basta expor as obras. Cabe-lhe traduzi-las, isto é, esclarecer a pluralidade semântica inerente a cada objeto e desvendar os sentidos para lá do que é visível.

O visitante pode, simplesmente, querer ir ao museu, mas pode querer algo mais e, nomeadamente, um tipo de informação em geral inexistente. A função museológica cumpre-se através do estudo e da investigação, cujos resultados, sob pena de resultarem estéreis, têm de ser processados e disponibilizados em diversas plataformas de entendimento, das mais simples às mais eruditas, encontrando códigos e canais acessíveis à pluralidade dos públicos.

O visitante pode, simplesmente, querer ir ao museu, mas deve querer algo mais. Se ao museu cabe fornecer a informação, também cabe ao público procurá-la. Não basta ir ao museu, não basta ver a exposição ou, pelo menos, isso não basta a todos os públicos.

Em A flauta mágica, de Mozart e Schikaneder, fazia-se a distinção entre Papageno, o homem natural e comum, e Tamino, o homem espiritual e intelectual, cada um com diferentes formas de fruição e diferentes meios de alcançar a felicidade. A cada um se exige diferentes níveis de esforço, tal como diferente será a recompensa obtida. Esta poderá ser uma metáfora da visita ao museu: ao público, diversificado e plural, exige-se o esforço da preparação. Pode querer apenas apreciar os aspetos formais das obras, mas mesmo para isso tem de treinar o olhar; pode querer compreender o sentido do que vê e, para isso, tem de estudar.

Porque para ter direito ao património – aquele direito que a instituição dos primeiros museus pretendeu consignar e se tornou depois inerente a toda a prática museológica – é necessário merecê-lo.

Referência bibliográfica:
Clair, J. (2011). Malestar en los museos. Gijón: Trea.

Fonte das imagens:
Museu do Louvre: MIR, 2013.

3 thoughts on “Mérito e demérito entre o museu e o público

  1. Um excelente texto Isabel… não consigo ver esta questão apenas pelo mérito ou demérito de qualquer das partes, mas sim pelo contributo de ambas para conquistar e merecer o direito ao património! E se possível que a conquista se faça envolvendo no processo (e de forma “bidirecional”) os museus e os públicos.

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