Paris de Charles Marville: Um olhar sobre a cidade em mudança

Exposição “Charles Marville: Photographer of Paris
Nova Iorque, The Metropolitan Museum of Arte, 29 janeiro – 29 maio 2014

“regardez le jeu bizarre des ténèbres et des lumières
dans ce sombre labyrinthes d’édifices”
(Victor Hugo)

Percement de l'avenue de l'Opéra: chantier de la rue d'Argenteuil  Charles Marville 1876, dezembro

Percement de l’avenue de l’Opéra: chantier de la rue d’Argenteuil
Charles Marville
1876, dezembro

Georges-Eugène Haussmann teve a ideia de construir uma nova Paris, moderna, cosmopolita, urbana, digna da sua história e da supremacia da sua cultura. Napoleão III, sobrinho de Bonaparte, proclamado imperador do 2.º império, em 1851, teve um propósito idêntico, que elevasse Paris à altura do seu reinado, uma imagem do seu poder, tornando-a mais magnífica cidade da Europa.

Em 1853, Napoleão nomeou o Haussmann perfeito do antigo departamento do Sena e encarregou-o de uniformizar, embelezar e modernizar a cidade.

Havia já alguns modelos de modernização urbana: em Londres, um grande incêndio em 1666, obrigara a uma renovação urbana que a tornara numa referência em termos de salubridade e higiene; em Lisboa, o grande terramoto de 1755 tinha originado uma cidade organizada, planificada segundo princípios racionalistas. Em Paris, em contrapartida, a cidade desagregava-se nos meandros de traçado medieval, ao longo do período conturbado desde o eclodir da Revolução e, em especial, durante as barricadas dos communards da Comuna de Paris, mas sem nenhuma tragédia que a assolasse e permitisse a reconstrução a partir dos escombros. Haussmann conciliou ambos os fatores e elegeu a ameaça social das barricadas, fáceis de erguer em ruelas estreitas, como motivo de premência para a pretendida renovação e forneceu a Napoleão III o pretexto para  “accepter dans une juste mesure la cherté des loyers et des vivres […] comme un auxiliaire utile pour défendre Paris contre l’invasion des ouvriers de la province” (Haussman cit. in Girard, 1986, p. 269).

Assim sendo, Haussmann expropriou os proprietários das casas e terrenos na zona de renovação, do centro de Paris aos bairros periféricos, implementou no seu lugar um plano urbanístico ordenado e arejado com grandes avenidas, quarteirões e praças, geometricamente organizado criando uma configuração em estrela concêntrica ao Arco do Triunfo: A burguesia passou a ocupar os novos prédios de fachadas uniformes, sóbrias e elegante, que sublinhavam o aspeto monumental do projeto.

A velha Paris desapareceu.

Porém, numa altura em que a fotografia começava a ser divulgada como instrumento de memória, Charles Marville foi encarregue de documentar as ruas medievais da velha Paris à medida que surgiam sobre elas as largas avenidas da nova Paris.

Uma seleção dessas fotografias estão atualmente em exposição no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, que as deixa também ao alcance da nossa vista, disponibilizando a maioria em linha e em formatos de grande resolução. Passa, também por aqui, a competência comunicacional do museu ao estabelecer conexões, não apenas com o seu público real no espaço físico da exposição, mas também no público do espaço virtual, dando-lhe acesso ao objeto e à informação que lhe é anexa.

Referências bibliográficas:
Hugo, V. (1840). Notre-Dame de Paris (t. 1). Paris : Furne et C.ie, Librairies-éditeurs. [epígrafe, t. 1, p. 212]
Girard, L. (1086). Napoléon III. Paris, Librairie Arthème Fayard.

Fonte da imagem :
http://www.metmuseum.org/exhibitions/view?exhibitionId=%7b21968755-5DDD-4FEA-81C5-000D8AAAF6B3%7d&oid=307388&pg=1&rpp=60&pos=49&ft=*

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