Calçada portuguesa, um mundo aos nossos pés

Chama-se calçada portuguesa ao pavimento empedrado que, a preto e branco, desenha aos nossos pés um mar ondulado, caravelas e rosas-dos-ventos, campos de imbricados, padrões geométricos, figuras, monstros e fantasias, símbolos e alegorias, siglas e brasões…

As origens remontam à Antiguidade e, em particular, aos mosaicos romanos com tesselas de calcário, mármores, por vezes, com a introdução de vidros e terracota, cujos contrastes cromáticos se conjugavam em tapetes de padrões, dos mais simples ou mais complexos, ou em cenas que podiam atingir um nível de elevada precisão nos detalhes do desenho sublinhado por linhas de contorno.

No tempo de D. João II, quando a expansão marítima se traduz em proveitos e se começa a instalar o otimismo económico decorrente do comércio do ouro da Mina, originando a concentração de entrepostos comerciais e o estabelecimento de casas ricas junto à zona ribeirinha de Lisboa, num processo de revitalização urbana que deu origem às chamadas ruas novas, o empedramento da via foi considerado o mais digno para corresponder ao prestígio do lugar. A obra, concluída já no reinado de D. Manuel, constituiu um modelo aclamado, seguido depois nalguns dos arruamentos mandados refazer na sequência dos terramotos de 1531 e 1551.

A configuração decorativa da calçada portuguesa em mosaico de pedra a definir a estética dos arruamentos na Baixa lisboeta, remonta à ação do Tenente-General Eusébio Cândido Pinheiro Furtado, governador do castelo de S. Jorge e autor do projeto de calcetamento com pedras pretas e brancas para a praça do Rossio, em 1848, recriando, em largas linhas onduladas do mar largo, o motivo de ziguezague que mandara aplicar nos pavimentos da fortaleza e seus arredores do castelo.

Na segunda metade do século XIX, as ruas da Baixa foram calcetadas a calcário e basalto, chegando às ruas e praças limítrofes, desde o Largo de Camões e o Príncipe Real ao Cais de Sodré, ao Chiado, à Avenida da Liberdade e, já na primeira década do século XX, ao Marquês de Pombal. Nas décadas de 1950 e 1960, foram convidados a criar padrões de calçada artistas como Abel Manta, Clara Smith e Maria Keil, enquanto os arquitetos os integravam nos seus projetos.

Calçada na praça dos Restauradores, em Lisboa, com desenho de Abel Manta.

Calçada na praça dos Restauradores, em Lisboa, com desenho de Abel Manta.

As pedras da calçada são paralelepípedos irregulares, de diferentes tamanhos, da grossa à muito miúda consoantes os usos, em basalto e em calcários, geralmente claro e negro, por vezes também em tonalidades cinzentas, acastanhadas ou róseas, cujos contrastes cromáticos são aproveitados para criar padrões de grande efeito decorativo.O cariz estético que imprimiu à paisagem urbana afirmou-se como parte integrante da identidade de Lisboa, juntamente com a luz dourada, o Tejo, os elétricos, o fado… E tornou-se, bem mais do que isso, numa marca que transporta a imagem matriz da cidade para lugares tão distantes como o calçadão de Copacabana e Ipanema, o largo do Leal Senado em Macau, a praça fronteira ao palácio da ilha de Moçambique…

Calçadão da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.

Calçadão da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.

A calçada portuguesa é um património genuíno, identitário, definitivamente gravado na nossa tradição e na nossa memória. Justifica-se a pretensão da Associação de Defesa do Património de Lisboa (ADPLx ) de classificar a calçada portuguesa como património nacional e mundial?

O debate em torno da questão, sobretudo depois de a Câmara de Lisboa ter anunciado a intensão de mandar retirar a calçada nalguns pontos da cidade, alegando razões de acessibilidade, de custos de manutenção. O grupo de cidadãos Lisboa (In)Acessível reduz o problema ao fator inclusivo através do binómio disjuntivo “o património ou o cidadão”.

Mas será que a questão tem vindo a ser corretamente formulada? A verdade é que os utilizadores em cadeira de rodas sofrem os efeitos da trepidação e os que têm mobilidade reduzida têm dificuldades acrescidas (a juntar aos restantes problemas dos obstáculos e do estacionamento em cima dos passeios, da falta de rampas…) e todos nós tropeçamos nos desníveis e nas falhas da calçada, escorregamos nela em dias de chuva, prendemos lá os saltos. Tal como tenho tropeçado, escorregado e caído noutros tipos de chão. E também é verdade que, sem a calçada, a cidade não será tão bonita e o património fica mais pobre.

A resolução favorável em que todas estas questões se articulam passa pela correta avaliação dos processos de manutenção e melhoramento do piso preservando a calçada artística. Passa também pela aplicação das normas existentes e pela vigilância da forma como são aplicadas. E podem, ainda, ser considerados outros fatores associados como o impacto do setor noutros ramos da atividade económica, o conhecimento artesanal e técnico que lhe está associado, as potencialidades técnicas e estéticas para os projetos urbanos. Talvez, em termos mais prosaicos, a questão se resuma ao facto de a autarquia ter atualmente 20 calceteiros ao seu serviço quando chegaram a ser quase 400.

Memorial a John Lennon Strawberry Fields Forever, Central Park, em Nova Iorque.

Memorial a John Lennon
Strawberry Fields Forever, Central Park, em Nova Iorque.

A verdade é que, no calçadão do Rio de Janeiro, vemos uma multidão a passear, a correr, de cadeiras de rodas. Em contrapartida, por ser um memorial a John Lennon e se considerar como uma obra de arte, não se passa sobre a calçada do Strawberry Fields Forever, no Central Park, em Nova Iorque, exceto para lá deixar flores e mensagens. São variáveis de um tributo ao mundo que, na calçada portuguesa, se desenrola aos nossos pés.

Bibliografia:
Amaral, F. P. K., & Santa-Bárbara, J. (2002). Mobiliário dos espaços urbanos em Portugal. Mirandela: João Azevedo Editor.
Bairrada, E. M. (1985). Empedrados artísticos de Lisboa: A arte da calçada-mosaico. S.l.: E.M.
Cabrera, A., Nunes, M., & Ruas, H. (1990). Olhar o chão = A glance at Portuguese mosaic pavement. Lisboa: Indústrias Lever Portuguesa.

One thought on “Calçada portuguesa, um mundo aos nossos pés

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s