Rui Chafes, (a sustentada leveza do) peso do paraíso

Exposição “O peso do paraíso”, de Rui Chafes
Lisboa, Centro de Arte Moderna, 13 fevereiro – 18 setembro 2014

Rui Chafes tem a primeira exposição retrospetiva em Portugal ou, pelo menos, a primeira com esta dimensão. São mais de uma centena de obras que preenchem os espaços e se prolongam para lá dele. Muitas nunca tinham sido apresentadas no país, enquanto foi através de outras que nos habituámos à obra de Chafes e aprendemos a distinguir a sua marca. Umas são imensas, exigindo uma reserva de vazio em torno. Outras são breves vibrações que, subitamente, se descobrem em sítios inesperados, quase impercetíveis. Cada uma é um universo único que concentra por inteiro, sem distrações, nem inadvertências. Todas são impositivas: estão ali e aquele lugar pertence-lhes por inteiro. O guião segue uma narrativa entre a força da presença de cada uma, a expetativa que a antecede e a pausa que se lhe segue, seguindo a lógica do contraste entre a intuição do peso e a imanência da leveza que se intui na obra de Chafes.

Exposição "O peso do paraíso" Lisboa, CAM, 2014

Exposição “O peso do paraíso”
Lisboa, CAM, 2014

De Rui Chafes, ou se gosta, ou não se gosta. Não há indecisões, porque, aqui, nada é mediano, ou indefinido, ou regular…

A exposição, essa, é também isso. Com a vantagem de ser Chafes e mais Chafes, novamente, quase indefinidamente. E é bom ver tanta gente a ver, a passar, a demorar e a voltar atrás, num domingo de chuva, que é também tempo de Carnaval, num CAM que era quase só do Rui Chafes, que quase queríamos que fosse só dele (tal como quereríamos também que o João Tabarra ali estivesse também sozinho, sem se marginalizar imerecidamente).

A quantidade e a qualidade das obras ocupam, em ampla variedade de escala, o volume do recetáculo em que se integram. A museografia é discreta, sem artifícios, usando a arquitetura como suporte exclusivo. À exceção de dois espaços mais intimistas e reservados, um para os desenhos e obra imprensa, o outro, como rutura ou epílogo, em que se apresenta Burning in the forbidden sea, o espaço foi deixado aberto com a nave longitudinal, ampla e sem obstruções, permitindo-nos uma leitura contínua e simultânea do todo ou da unidade singular e autónoma. Não obstante, é precisamente este espaço-contentor que constitui a maior ameaça à eficácia da exposição, quando a neutralidade se interrompe numa cobertura baixa e cheia de ruído visual. As linhas e as saliências que, no teto, se cruzam com o espaço vital das obras expostas, interferem na perceção e, nalguns pontos, manipulam-lhes a forma e alteram-lhes o sentido. Nem sempre acontece e, seguramente, não ofende a maioria das obras pelo que não é fator suficiente para subtrair qualidade a esta exposição.

Aurora Rui Chafes 1989 Ferro Col. particular

Aurora
Rui Chafes
1989
Ferro
Col. particular

chafes_Was erschreck Dich so

Was erschreck Dich so?
Rui Chafes
2008-2009
Ferro
Alemanha, Col. Würth

Was Soll ich tun wenn du nicht da bist? Rui Chafes 2004 Ferro Alemanha, Museum Folkwang Essen

Was Soll ich tun wenn du nicht da bist?
Rui Chafes
2004
Ferro
Alemanha, Museum Folkwang Essen

A história da minha alma [Conjunto de 17 esculturas] Rui Chafes 2004 Ferro Col. do artista

A história da minha alma [Conjunto de 17 esculturas]
Rui Chafes
2004
Ferro
Col. do artista

Não separes o sim do não (pormenor) Rui Chafes 2006 Ferro Col. do artista

Não separes o sim do não (pormenor)
Rui Chafes
2006
Ferro
Col. do artista

Durante o Sono  Rui Chafes 2002 Ferro Lisboa, CAM

Durante o Sono
Rui Chafes
2002
Ferro
Lisboa, CAM

Burning in the forbidden sea Rui Chafes 2011

Burning in the forbidden sea
Rui Chafes
2011

Ao sair, assaltam-nos outras questões: o que é o CAM, hoje em dia? Museu, centro de arte, sala de exposições temporárias? Onde está a coleção do CAM? Onde está a arte moderna? Onde, quando a podemos ver?

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