Turismo criativo e museus

No texto Impacto do Turismo Criativo no desenvolvimento do Turismo Cultural  (Oliveira, 2014), publicado na Publituris, Cristiana Oliveira expõe as circunstâncias e os efeitos da “universalização do turismo enquanto atividade económica verdadeiramente global”, chamando a atenção para a progressiva implementação do turismo “criativo”. Se os padrões do turismo de consumo baseado nos formulários dos pacotes de sol e praia têm vindo a anunciar desgaste, também o turismo cultural começa a esgotar-se nos habituais padrões de visita a monumentos e museus superpovoados, onde o visitante se confina ao papel de espetador de paisagens naturais ou dos indícios materiais de outras culturas. A visualização de indícios materiais de realidades que, sendo exógenas, se mantém indecifráveis e incognoscíveis é uma vivência truncada na experiência da viagem.

Decorrente do mesmo fenómeno, também as curadorias dos espaços culturais têm vindo a assistir ao afluxo maciço do turismo cultural com um crescente assombro, mas também com um sentimento dúbio, entre o júbilo e a impotência: por um lado, a superação dos objetivos de conquista de público e o cumprimento de uma das principais funções museológicas (a conquista de público real) e aquela que gera um maior índice de riqueza; por outro lado, a consciência de que este tipo de fruição cria problemas de gestão e de preservação das coleções, ao mesmo tempo que afasta um segmento de público, precisamente, aquele que assegura um tipo de fruição mais consistente e contínua.

Desde a década de 1990 e a partir da intervenção pioneira de Ieoh Ming Pei no museu do Louvre, os grandes museus e monumentos têm vindo a ampliar os espaços de acolhimento, integrando novas áreas de serviços, e a reformular a distribuição dos visitantes. Não obstante, estas soluções apenas transferiram o problema, uma vez que o turista cultural se move em percursos específicos orientados para determinadas obras ou pontos considerados fulcrais. No Louvre, apesar da construção do carroussel, a multidão persiste ao longo da Grande Galeria e em direção à Gioconda, cumprindo um padrão de visita obrigatório, mas automatizado e inconsequente.

Salle de la Joconde no museu do Louvre Paris, julho de 2013

“Salle de la Joconde” no museu do Louvre
Paris, julho de 2013

Enquanto, até agora, a museologia se empenhava em criar modelos de comunicação externa e interna que conduzisse e fidelizasse o visitante ao museu, começa a questionar-se a forma de controlar este afluxo. Equaciona-se, por isso, o alargamento de propostas culturais, em que o visitante possa ultrapassar a condição de observador para assumir um papel interveniente na ação, deslocando-o dos eixos habituais para espaços marginais e complementares, onde ocorram experiências mais abrangentes e compensadoras. É neste sentido que se formaliza uma cooperação mais dinâmica entre o turismo criativo e o novo papel das instituições museológicas.

Aos espaços patrimoniais e culturais convém alargar as expetativas, conjugando as tradicionais ofertas do turismo cultural com as novas exigências do turismo criativo.

“Esta geração de turismo requer um envolvimento dos agentes locais e o reconhecimento de que a criatividade pode ser utilizada como um recurso para os destinos de turismo cultural e fornecer novas oportunidades de envolvimento com os visitantes.” (Oliveira, 2014)

Ao mesmo tempo que o turismo criativo acusa o esgotamento dos modelos convencionais da oferta cultural, também impõe novos modelos de fruição, através de vivências mais integradoras dos lugares de destino, fazendo parte dos seus quotidianos e das suas culturas. Tal como Cristiana Oliveira prevê que “os modelos propostos de implementação nos vários destinos nacionais, sejam, talvez, uma primeira aproximação ao crescimento futuro desta forma de turismo” (id., ibid.), também se prefigura por aqui o mais premente desafio à museologia contemporânea.

Compete, às tutelas de espaços culturais e patrimoniais, encontrar as novas vias de desenvolvimento que permitam aproveitar os benefícios do desenvolvimento da indústria do turismo e, em simultâneo, reverter as consequências do afluxo maciço de público. Em contrapartida, tendo em vista uma abordagem criativa às potencialidades destes espaços, impõe-se um investimento sustentado na formação dos agentes de turismo em domínios do conhecimento relacionados com a cultura e as humanidades.

Referência bibliográfica:
Oliveira, C. (2014, 27 fev.). Impacto do turismo criativo no desenvolvimento do turismo cultural. Publituris. Disponível em: http://www.publituris.pt/2014/02/27/impacto-do-turismo-criativo-no-desenvolvimento-do-turismo-cultural/

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s