Júlio Pomar: um olhar entre textos e imagens

Exposição “Tratado dos olhos”, de Júlio Pomar
Lisboa, Atelier-Museu Júlio Pomar, 28 fevereiro – 28 setembro

Pomar, J.; Matos, S. A. (ed.); Faro, P. (org.). (2014). Notas sobre uma arte útil: Parte escrita I. Lisboa: Documenta; Atelier-Museu Júlio Pomar.
Júlio Pomar expõe-se através do texto e da imagem. Ao mesmo tempo que se inaugura a exposição Tratado dos olhos, é lançada a obra Notas Sobre uma Arte Útil com textos escritos entre 1942 e 1960, por altura do exílio em Paris. Anuncia-se como o primeiro volume da trilogia intitulada Parte da escrita, completada com Da Cegueira dos Pintores, Parte Escrita II (1985) e Temas e Variações, Parte Escrita III (1968-2013), cuja publicação está prevista para os próximos meses a partir da recolha elaborada por Sara Antónia Matos, diretora do Atelier Museu, e Pedro Faro.

Os escritos deste primeiro volume coincidem com o tempo do ativismo político, enquadrado na luta antifascista e concretizado na adesão ao Movimento de Unidade Democrática (MUD), da colaboração com os jornais A Tarde, Seara novaVérticeMundo literário e Horizonte, da participação no movimento artístico “Os Convencidos da Morte”. E tudo isto se  reflete nos  textos aqui recolhidos, onde Júlio Pomar sustenta e justifica a estética comprometida do neorrealismo, tal como define o tema e a forma da pintura que faz nesta fase.

É o tempo da fase neorrealista, influenciado pela literatura de Alves-Redol e Soeiro Pereira Gomes e pela pintura de intervenção social e política de Cândido Portinari, Diego Rivera, Clemente Orozco e Alfaro Siqueiros. São desta época, as figuras duras, de mãos e pés enormes, olhares fixos que se projetam ao nosso encontro em pinturas como O Gadanheiro ou O Almoço do Trolha.

A década de 1950 é definitivamente marcada pela ida a Madrid e a descoberta da pintura de Goya: as telas tornam-se mais obscuras, os rostos mais lívidos, num contraste perturbado, em que a existência se angústia no limiar da morte, da escuridão, da cegueira. Para lá do realismo, a pintura torna-se mais gestual e expressiva, com a premência da pincelada cada vez mais solta e impulsiva, numa vibração subconsciente. São Os cegos de Madrid, pintura de 1957, onde, sob a epígrafe de James Joyce “Fechemos os olhos para ver”, Pomar constrói uma visão alegórica desses (ou destes) tempos: as faces cadavéricas das figuras que se confundem numa mancha imprecisa, estendendo as mãos com as bolsas de esmola.

Cegos de Madrid Júlio Pomar 1957 Pintura a óleo sobre Tela Lisboa, Centro de Arte Moderna (CAM)

Cegos de Madrid
Júlio Pomar
1957
Pintura a óleo sobre Tela
Lisboa, Centro de Arte Moderna (CAM)

É também disto que se trata na exposição Tratado dos Olhos, comissariada por Paulo Pires do Vale, que contextualiza o universo íntimo do artista-escritor-pensador entre estas duas  décadas. Cruzam-se as referências a outros pintores, de Uccello ou Goya a Malevich e Bacon, com as leituras de – ou sobre – outros autores provenientes da reposição de uma parte da biblioteca de Pomar.

A exposição e o livrodesvendam não só as reflexões de Júlio Pomar acerca da sua obra, mas também uma atitude crítica, despudorada e desapiedada, sobre a pintura de outros artistas, tornando-se um documento inevitável para o estudo da arte e da sociedade da época.

Através da leitura paralela, entre o texto e a imagem, ajusta-se a antologia da obra de Pomar, a (re-)ler e a (re-)ver.

Fonte da imagem:
Fundação Calouste Gulbenkian, Centro de Arte Moderna, em:
http://cam.gulbenkian.pt/index.php?article=60723&visual=2&langId=1

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s