O património numa viagem sem retorno

Le voyage de l’obélisque, Louxor / Paris (1829-1836)
Paris, Musée national de la Marine, 12 février – 6 juillet 2014

Ao contrário do que possa parecer, o obelisco que se encontra na praça da Concórdia, em Paris, não foi espoliado pelos franceses e trazido ilicitamente para França.

O que não os iliba absolutamente da responsabilidade de descontextualização de um grande número de vestígios de culturas e civilizações passadas, tendo dado início a um vasto fenómeno de expedições de recolha de antiguidades no Médio Oriente

Em 1798, Napoleão Bonaparte foi encarregue pelo Diretório de efetuar uma expedição ao Egipto, no contexto das lutas da Revolução Francesa e da guerra com Inglaterra, com o objetivo de inviabilizar a rota das Índias. Não obstante, fez-se acompanhar por um grupo de historiadores, arqueólogos, geógrafos, naturalistas, engenheiros, arquitetos e artistas, sobretudo desenhadores, membros da Commission des Sciences et des Arts, com a missão de efetuar um levantamento dos monumentos e outros vestígios da antiga civilização egípcia. Na realidade, a expedição efetuou uma recolha daquilo que podia ser conservado mas, após a derrota que lhes foi infligida pelas tropas britânicas e otomanas, foram obrigados a entregar o espólio recolhido aos adversários que, posteriormente, o enviaram para o museu Britânico. Uma das peças mais importantes deste espólio era a Pedra de Roseta. (Vd. Roque, 2012)

Não obstante, a consequência fulcral deste processo foi a redescoberta de uma civilização, reintroduzindo-a no imaginário europeu, ao mesmo tempo que fomentava a corrida atrás dos seus testemunhos materiais, num clima de competição entre as várias potências europeias.

Por outro lado, a campanha napoleónica e a sequente derrota deixaram um vazio de poder no Egipto de que se aproveitou Mehmet Alí, comandante do exército turco que expulsara os franceses, para conseguir o cargo de governador e iniciar uma campanha expansionista no Mediterrâneo até ser impedido, em 1827, por uma coligação naval formada pelo Reino Unido, França e Rússia. Logo em seguida, os franceses iniciaram as negociações com Mehmet para conseguir, através do  Bernardino Drovetti, cônsul no Cairo, apoio na ocupação da Argélia. Mehmet acabou por recusar mas, em contrapartida e como sinal de boa vontade, ofereceu a França um dos obeliscos de Ramses II, proveniente do templo de Luxor no Alto Egipto.

Les deux obélisques devant la façade du temple de Louxor François-Charles Cécile (1766-1840) Aquarelle C. 1800 Crédits : © RMN-Grand Palais (musée du Louvre)

Les deux obélisques devant la façade du temple de Louxor
François-Charles Cécile (1766-1840)
Aquarelle
C. 1800
Crédits : © RMN-Grand Palais (musée du Louvre)

O obelisco chegou a Paris em 1833 e, três anos depois, o rei Luís Filipe I mandou erguê-lo no centro da praça onde estivera a guilhotina durante a Revolução. O engenheiro Apollinaire Lebas foi encarregue da operação de levantar o monolito de 230 toneladas e quase vinte e três metros de altura. A 25 de outubro de 1836, na presença do rei e mediante um engenhoso sistema de contrapesos e a força de 350 artilheiros, o obelisco foi implantado no sítio definitivo.

Na altura, era uma aberração sem qualquer ligação ao espaço que o envolvia; hoje, faz parte integrante da paisagem e da história urbanística de Paris. Mas continua sem fazer sentido, perdidas as coordenadas que o integravam no complexo edificado e simbólico do Antigo Egito. A colocação do par de obeliscos, sempre dois, com o vértice dourado e onde os faraós mandavam gravar os seus feitos e as suas homenagens a Amon, o deus solar, a ladear a porta de entrada  dos templos, à frente dos pilones, eram um raio de sol em pedra, que estabelecia o contato entre o mundo dos homens e o dos deuses. Em Paris, tornou-se um mero eixo de uma das praças mais movimentadas à entrada dos Campos Elísios…

Os sete anos entre a oferta de Mehmet e a colocação na praça, o percurso da travessia no Nilo, através do Mediterrâneo e do Atlântico, até à viagem difícil através do território francês, são agora objeto da exposição Le voyage de l’obélisque. Louxor/Paris (1829-1836), no Musée national de la Marine, em Paris.

Não é a presença – contestada e polémica – do obelisco que se celebra, mas o esforço coletivo e a inovação técnica que tornou possível esta viagem. Cada vez mais se contesta a deslocação do património e são mais audíveis as vozes e os argumentos de quem reclama a devolução de alguns dos mais notáveis testemunhos das civilizações antigas aos seus locais de origem. A verdade é que a entrada do templo de Luxor, irremediavelmente destituída de um dos raios de sol petrificados, mantém aberta a ferida de uma absurda assimetria.

Bibliografia:
Roque, M. I. R. (2012). O museu de arte perante o desafio da
memória. Boletim Do Museu Paraense Emílio Goeldi. Belém: Museu Paraense
Emílio Goeldi
, 7(1), 67–85. http://www.scielo.br/pdf/bgoeldi/v7n1/a06v7n1.pdf

Fonte da imagem:
2014 (2 fev.). La mémorable expédition de l’obélisque de Louxor. Le monde : culture
http://www.lemonde.fr/culture/portfolio/2014/02/20/la-memorable-expedition-de-l-obelisque-de-louxor_4367006_3246.html

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