A difícil construção da história

Ao fim de longos dias de confrontos em Kiev, em que as forças do regime tentaram dominar a crescente revolta contra um regime autoritário e corrupto, o poder mudou de mãos, pondo a descoberto as propriedades vastas e sumptuosas de Ianukovich, onde a sobranceria se traduz nos mais fatigados clichés do luxo aparatoso: revestimentos de mármore, apainelados, profusão de ouro, pedrarias e dourados, lustres, tapeçarias, ícones, armaduras, esculturas, veludos, bronzes, porcelanas, um jardim zoológico privado… Está justificada a classificação como “museu da corrupção”, atribuída pelo New York Times. (Vd. Inside the ‘Museum of Corruption’)

A multidão perfilou-se numa fila interminável para entrar nestes domínios e avançar à descoberta de uma parafernália de gosto duvidoso, mas alarvemente dispendiosa, entre a incredulidade e a raiva, obedecendo ao aviso colocado à entrada “visitantes, não destruam as provas da arrogância dos ladrões”.

Visitantes à entrada do palácio de Ianukovich. Foto: Genya Savilov/AFP

Visitantes à entrada do palácio de Ianukovich.
Foto: Genya Savilov/AFP

É, de facto, o museu da corrupção porque todos estes objetos são um documento da corrupção que grassou no país e constituem a fonte para a reconstituição da história recente do país.

Visitantes no palácio de Yanukovych. Foto: Konstantin Chernichkin/Reuters

Visitantes no palácio de Yanukovych.
Foto: Konstantin Chernichkin/Reuters

Ao mesmo tempo, porém, as estátuas de Vladimir Lenine caiem por terra por toda a Ucrânia, de Poltava à Crimeia. O movimento “Leninopad” (queda dos Lenines) começou em dezembro passado, quando os manifestantes destruíram o monumento a Lenine, em Kiev, uma obra do escultor soviético Sergei Merkurov. Começa, por isso, a avolumar-se o incómodo de alguns perante os excessos cometidos e, no passado domingo, o ramo ucraniano do Comité Internacional do Escudo azul, alertou para a destruição de bens com valor patrimonial.

Destruição da estátua de Lenine em Kiev Foto: AP

Destruição da estátua de Lenine em Kiev
Foto: AP

Costuma ser assim: os excessos descontrolados que extravasam tensões reprimidas, mas que são também manipulados por forças calculistas que lhes são extrínsecas, desabam sobre os sinais visíveis da sua identidade coletiva. Faz parte dos momentos revolucionários, como uma catarse, a explosão da fúria contra os símbolos de um regime. Assim se constrói a história, entre testemunhos que se perdem e os memórias que se fixam. Mas será inevitável que isto aconteça desta forma?

Certamente que não, porque a multidão continua ordeira, numa fila interminável à espera de ver o universo íntimo do presidente deposto.

Fontes das imagens:

(2014, 25 fev.). In pictures: Inside the palace Yanukovych didn’t want Ukraine to see.  The Telegraph. http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/ukraine/10656023/In-pictures-Inside-the-palace-Yanukovych-didnt-want-Ukraine-to-see.html?frame=2831701

(2014, 25 fev.). MailOnline. http://www.dailymail.co.uk/news/article-2520405/Ukraine-crowd-topples-beheads-Lenins-statue-fight-join-EU-Russia.html#ixzz2uNPAtx64

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s