Uma questão de gosto

Strange Beauty: Masters of the German Renaissance
Londres, National Gallery, 19 February – 11 May 2014

A exposição de pintura renascentista alemã que acaba de inaugurar na National Gallery, em Londres, apresenta alguns dos principais artistas deste período, como Hans Holbein o Novo, Albrecht Dürer e Lucas Cranach, o Velho. Como se diz, na apresentação da exposição, “All famous artists in their own time, the exhibition will highlight the ways in which their paintings, drawings and prints were valued in the 16th century for qualities such as expression and inventiveness.” (The National Gallery, 2014) Aparentemente, nada de novo…

E, no entanto, mais do que apresentar uma coleção, a National Gallery propõe uma nova perspetiva, não sobre a obra de arte, mas acerca da forma como ela é percecionada e considerada consoante as épocas. Desta forma, assume-se que, ao avaliar a obra de arte, o julgamento do museu é falível e suscetível de preconceitos.

Em 1856, o parlamento britânico autorizou a venda de 37 obras, tendo como pretexto aliviar a galeria de um excesso de arte alemã – pouco tempo antes, em 1853, o Governo Civil de Lisboa ordenara a queima de cerca de 800 quilos de quadros no Campo Pequeno, por se achar que eram obras de pouca valia ou cujo estado já não merecia a conservação (Castelo Branco, 1854). A venda procurava contrariar uma compra de 64 pinturas alemãs renascentistas feita dois anos antes pelo ministro das Finanças, William Gladstone, e que a opinião pública, impulsionada pela contestação na imprensa, considerava desastrosa. Correspondia também ao empenho dos conservadores do museu, que usaram de todos os meios para conseguir alienar esse espólio com o argumento de que a arte alemã era “excessive” ou “ugly” e, genericamente, inferior à arte italiana da mesma época. Os corpos deformados e dilacerados de Matthias Grünewald eram consideradas repulsivas, enquanto a tensão erótica das figuras femininas de Cranach pareciam demasiado estranhas e constrangedoras.

Cupid complaining to Venus (Cupido reclamando com Vênus) Lucas Cranach, o Velho, c. 1525 Londres,  National Gallery

Cupid complaining to Venus (Cupido reclamando com Vénus)
Lucas Cranach, o Velho, c. 1525
Londres, National Gallery

A forma como a exposição está a ser acolhida também não é consensual. Jonathan Jones, crítico de arte de The Guardian, escrevia na véspera da abertura da exposição ao público que “Trying to excite people about the German Renaissance without borrowing any art from Germany is absurd” (Jones, 2014). Em contrapartida, Mark Brown, correspondente de artge no mesmo jornal, salienta a forma como a “exhibition asks visitors to judge for themselves” (Brown, 2014) e o facto de, no final, o público ser convidado a participar e a dar a sua opinião em questões como “are beauty and expression incompatible?” (Id., ibid.)

Se a intenção expressa desta exposição é “examine the evolution of the perception of German Renaissance art and the reasons why attitudes towards it were mixed in the 19th and early 20th centuries”, a verdade é que equaciona um tema bem mais complexo e tentacular da subjetividade de quem tutela as coleções, as seleciona, organiza e disponibiliza. Afinal, que critérios presidem à (des-)promoção de artistas e obras por parte da crítica, com caráter executório e definitivo, de quem dirige galerias e museus? Este é, de resto, um processo dinâmico de seleção (natural) do património, até porque não conseguiríamos subsistir rodeados de tudo o que já foi criado e produzido. Mas não deixa de provocar um sabor amargo ao pensar se o rejeitado seria de facto mau, ou se hoje, ao passar ao lado de obras que não compreendemos, não estaremos a privar o futuro daquilo que poderia ser considerado uma obra fundamental.

Bibliografia:

Brown, M. (2014). Nein danke! National Gallery unveils German art it once sold off as “ugly” | Art and design | The Guardian. The Guardian. Retrieved from http://www.theguardian.com/artanddesign/2014/feb/18/german-art-neine-danke-national-gallery

Castelo Branco, J. B. C. de F. (1854). Estudos biográphicos ou notícia das pessoas retratadas nos quadros historicos pertencentes à Bibliotheca Nacional de Lisboa. Lisboa: F. A. da Silva. Retrieved from http://purl.pt/241

Jones, J. (2014). Strange Beauty – review. The Guardian. Retrieved from http://www.theguardian.com/artanddesign/2014/feb/18/strange-beauty-review-national-gallery

The National Gallery. (2014). Strange Beauty: Masters of the German Renaissance | Exhibitions and displays | The National Gallery, London. Retrieved February 20, 2014, from http://www.nationalgallery.org.uk/strange-beauty

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