Imagens deturpadas

Numa pedagogia positiva, devem apresentar-se os bons exemplos. Porém, quando a imagem de ocorrências negativas se torna proeminente, invade as redes sociais e chega à imprensa, torna-se impossível ignorá-las e torna-se pedagogicamente correto abordá-las como expressão materializada do erro.

Sem o impacto à escala global – ainda! – do Cristo de Borja, que se tornou um fenómeno icónico e mediático, o famigerado restauro do apostolado da Capela da Última Ceia do Santuário de Nossa Senhora as Preces, Aldeia das Dez, Oliveira do Hospital alerta para uma prática de nefastas intervenções de que o nosso património continua a ser alvo. No caso, um trabalho efetuado no âmbito da disciplina “Museologia, Conservação e Restauro”, lecionada na Universidade do Tempo Livre da Associação Nacional de Apoio ao Idoso, de Coimbra, e orientado pelo Dr. João Miguel Vieira Duque, que, em entrevista ao Correio da Manhã (2014, 2 fev., p. 16) se diz orgulhoso do trabalho feito em 2008, se vangloria dos vinte e dois anos de profissão como conservador-restaurador e apresenta como credenciais o mestrado Sociomuseologia que está a tirar na Universidade Lusófona. Mais pernicioso, portanto, por se encobrir sob uma falsa capa de competência profissional.

Aula da disciplina de“Museologia, Conservação e Restauro”, lecionada na Universidade do Tempo Livre da Associação Nacional de Apoio ao Idoso, de Coimbra. In (2009) Rutis, 4, p. 3. Disponível em http://www.rutis.org/documentos/conteudos/Rutis_Jornal_4.pdf

Aula da disciplina “Museologia, Conservação e Restauro”, lecionada na Universidade do Tempo Livre da Associação Nacional de Apoio ao Idoso, de Coimbra. In (2009) Rutis, 4, p. 3.

Nem esta intervenção de repinte é recente, nem o caso é isolado. Há décadas que, das instituições oficiais aos historiadores da arte, aos conservadores-restauradores, àqueles que simplesmente se interessam pelo assunto, têm vindo a sensibilizar tutelas e populações para as intervenções “restauracionistas” dos habilidosos cheios de boa vontade e empenho, que tornam as coisas mais bonitinhas e arranjadas. Quem não conhece exemplos deste tipo? Quem não assistiu à renovação purpurinada de retábulos de talha dourada? Ao revestimento de pedras com cimento? À maquilhagem e manicura de santos e santos? Às carnações de cores sólidas e uniformes? À descaraterização e à destruição de estruturas, de imaginária, de mobiliário? Porque são processos mais rápidos, mais baratos e mais imediatos, do que se for necessário encontrar especialistas, aguardar a sua disponibilidade e justificar orçamentos eventualmente superiores. E porque genericamente agradam às populações e adaptam-se aos ritmos da fruição local. E porque a sensibilização, afinal, não tem sido eficaz.

Passados cerca de seis anos sobre o restauro das imagens do Santuário de Nossa Senhora as Preces, a notícia chegou ao Facebook e, no espaço de dias, tornou-se quase viral: a página “Fórum de Conservadores-restauradores denuncia crime patrimonial”, criada a 15 de fevereiro, passados dois dias e meio, ultrapassou os 1.500 gostos, com uma excecional profusão de comentários, fundamentados e alguns até bastante extensos. O artigo do Correio da Manhã tem chamada na capa. A imagem das cabeças com a cara e a calva esbranquiçadas, o cabelo, a barba e as sobrancelhas de um preto profundo, os lábios de um avinhado escuro, sem gradações, torna-se um padrão, repetido e reconhecível. O risco é que se transforme num arquétipo, no sentido em que a imagem, por repetida, se torna, comum, vulgar, redundando numa crescente empatia, geradora de sequentes reapropriações e reinterpretações, e, por isso ganhando uma individualização com valor icónico.

Imagem da página de Facebook do Fórum de Conservadores-restauradores denuncia crime patrimonial. In https://www.facebook.com/forumdeconservadoresrestauradoresdenuncia

Imagem da página de Facebook “Fórum de Conservadores-restauradores denuncia crime patrimonial”

Fontes das imagens:
(2009) Rutis, 4, p. 3. Disponível em: http://www.rutis.org/documentos/conteudos/Rutis_Jornal_4.pdf
Fórum de Conservadores-restauradores denuncia crime [página Facebook]. Disponível em: https://www.facebook.com/forumdeconservadoresrestauradoresdenuncia

6 thoughts on “Imagens deturpadas

  1. faz-se necessário explorar bem esse tema a fim de evitar que novas intervenções sejam feitas por pessoas cheias de boa vontade, porém sem o devido preparo técnico e a habilidade necessária.

  2. Ótima análise Maria! O que me tranquiliza um pouco, quanto a chance disso virar uma espécie de arquétipo, é a exposição negativa que está tendo. O que me preocupa são as obras restauradas que não tiveram exposição alguma, imagine quantas estão por ai..escondidas com seus rostos esbranquiçados (filme de terror! rss)

  3. Pingback: As 10 publicações mais lidas em 2014 | a.muse.arte

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